http://tapornumporco.blogspot.com/2007/03/ser-isto-arte-por-el-bosco.html
Só com o título já cacei duas ou três bestas apocalípticas, que vêm já por aí a baixo, de foice em punho e aferradas à goela do escriba: cá está o gajo outra vez!, cá está o gajo outra vez!
O assunto já andou por aqui e regressará certamente muitas mais vezes. A velha discussão sobre o que é arte ou não é. Uma discussão conceptualista que atravessará para sempre o porco e os tempos. A polémica já aqui reinou a propósito das “latitas de merda” do Piero Manzoni (primeira foto e vide posta anterior aqui), do roubo da massa do povo pela escuridão do “Branca de Neve” do João César Monteiro (segunda foto) e ao que me lembro do Urinol de Duchamp (terceira foto). Será isto Arte??
Nelson Goodman, no seu livro “Modos de Fazer Mundo” (Edições Asa, 1995(Esgotadíssimo), no original “Ways Of Worldmaking”-1975-1977), tem um capítulo delicioso e fundamental que aborda o assunto de forma quase definitiva.
Segundo o professor de Harvard, a pergunta “O que é arte?”, à qual e ao longo dos tempos inúmeros autores se têm dedicado a tentar responder em ensaios estéticos, esconde uma outra, com a qual se confunde muitas vezes e que é a sua pergunta corolário: “O que é boa arte?”
Goodman não responde a isto, nem vai por aí. Segundo ele a questão é errada. A resposta não reside na definição de “arte” ou de “boa arte”, onde reinará sempre o perigo e a idiotia, mas encontra-se num momento conceptual imediatamente anterior, e que Goodman traduz numa outra pergunta, essa sim fulcral: “Quando É Arte?”
E aí, Goodman responde: “Há arte quando lhe estão associados símbolos.” O que é símbolo e deixa de ser é outro capítulo extenso e denso que não importa trazer aqui. Basicamente é isto: um calhau do jardim, passa a ser arte quando o artista o leva para uma galeria e lhe atribui outra função ao retirá-lo do jardim. Atribui-lhe um significado. O calhau, como o Urinol de Duchamp ou Merda de Manzoni, deixam de ser meros objectos e passam a ser arte, quando adquirem uma simbolização, uma função de arte.
A simbolização, que pode ir e vir, colar-se ou desaparecer de um objecto, é inerente a toda a arte e não há arte sem um significado simbólico associado. Se lá chegamos ou não, se gostamos ou não e sobretudo, se estamos dispostos a pagar por aquilo ou não, essas são outras questões e conceitos.
Mesmo um colosso como A Vista de Delft de Vermeer, quadro que toda a gente reconhece como grande arte (todos não, há um irredutível gaulês aqui no Porco, que acha isso mais do que discutível), pois mesmo o Vermeer, pode deixar de ser arte ao ser-lhe retirada a simbologia. Se a Vista de Delft passar a ser usado para tapar uma janela (alteração de função e símbolo) ele deixa de funcionar com arte para funcionar como vedante.
O anterior símbolo e função de arte passaram a vedante. Deus nos livre. Já as latitas de merda do Manzoni e o urinol do Duchamp deviam deixar a galeria e passar à casa de banho e ao alegre convívio com a mãe sanitas e o pai autoclismo.
| Sim também acho que a subjectividade é mesmo a pedra de toque que transforma as "coisas" em "arte". Significado sim, é definidor; significados é qualificador.
E que tal tentarmos nós uma definição de arte? Não me parece assim tão difícil.
- É um acto de vontade;
- É um exercício de significação;
- Pretende produzir reacções estéticas;
Quanto ao que é boa ou má arte, isso daria pano para mangas... Significados... alguém quer tentar? Artur | Homepage | 03.20.07 - 1:50 am | #
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Artur: iá tá esclarecido o teu conceito de reacção estética. Isso torna a apreciação da arte subjectiva. Mas há algum mal nisso? Por mim, antes pelo contrário. É a subjectividade que faz da arte uma coisa aliciante. Até vou mais longe que tu: creio que mais que a reacção estética é a capacidade da arte mexer com o universo pessoal de cada um que faz a sua qualidade. Um clássico é clássico porque tem essa capacidade a uma escala incomensurável. Tou~, pois, de acordo contigo. ão vejo a arte como alguns caçadores de borboletas mortas que a encaram como se de ciência se tratasse. Doomsday Anonymous | 03.20.07 - 1:03 am | #
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Bosco: Não, em vale a pena reler o goodman. Tu comentas o meu comment como se me tivesses apnhado numa armadilha bem urdida. Ora não é nada disso. estas questões ã são nenhum jogo, nem nenhuma prova cega onde a melhor nota é aferida pelo que escreveram as sumidades. O goodman é uma sumidade, certo. Mas isto não é na base do «quem disser o que e diz é que tá certo». Não sei nem vou ver se o exemplo que dás do vermeer é extraído dele. O que defendo é que, repito, o processo de simbolização de uma obra não se esgota na simples alteração da função da obra. No caso do calhau sim, aí é a mudança de contexto que faz que a pedra ganhe potência simbólica, mas no caso de um quadro do vermeer é diferente. Eu entendo que aí, o simbolismo da obra não reside na mera função que ela ocupa. Aliás, tens até o caso concreto dos painéis de S. Vicente que, segundo julgo saber - há aqui quem saiba disso mais que eu e fará o favor de me corrigir dse não estou certo - que chegaram, p+recisamente a fazer de tapume. Não foi por isso que não se lhes reconheceu o potencial simbólico devido. Quanto ao exemplo do calhau também não vou reler o goodman por causa disso, mas tenho quase a certeza que não é de lá. Conheço a referência e é de um texto da Carmo d`Orey que cita uma intervenção do Alberto carneiro. Não me consta que o goodman conheça a obra do carneiro, o que é que achas? Doomsday Anonymous | 03.20.07 - 12:42 am | #
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"lo del progreso en el arte son tonterías archisabidas" Cortázar, Rayuela Bronzino Anonymous | 03.19.07 - 11:02 pm | #
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É arte quando o gajo que pega no calhau e o põe na galeria tem os amigos certos nos sítios certos. Rosarinho | Homepage | 03.19.07 - 1:43 pm | #
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E mais uma coisa (razão pela qual a reacção estética de que falei não é definidora de arte): tal reacção só se verifica se houver uma chave para a descodificação do símbolo que se propõe ser arte.
Então toda a arte é feita para um determinado público. Dito por outras palavras: quem é que determina o estatuto de "símbolo"? É um valor absoluto? Em meu ver essa atribuição é um acto cultural e não estético.
Explica-te melhor my Goodman... Artur | Homepage | 03.19.07 - 11:16 am | #
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Toda a arte visa (ou deve aspirar a) provocar uma reacção estética o que não quer dizer que o consiga e, nesse sentido, não pode ser condição da existência ou não de arte. É claro?
Por reacção estética entendo um sentimento de agrado ou mesmo repulsa ou ainda algo não necessariamente situado num destes extremos. Por outras palavras: emocionar. Indiferença não.
Reafirmo a importância do "porque se faz arte" na definição de arte. Exemplo: quando o Warhol fez uma porrada de caixas "brillo" ao ver que a coisa se vendia que nem pão quente estava a pensar no símbolo ou no carcanhol? Artur | Homepage | 03.19.07 - 10:50 am | #
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Eis a primeira das bestas. Doomsday! Be afraid, be very afraid!
E convém reler bem o post anterior que está linkado, bem como reler o Goodman.
O Goodman fala de facto na alteração de função e retirada da simbologia. Este post agora retocado está feito há muito tempo e li o livro emprestado, mas julgo que o exemplo do "vedante" é directo e ao vivo de lá. e o do calhau ou similar julgo que também. como só tens o livro, relê.
no mais há uma questão onde o Goodman não se mete e que aliás está no post, que é da atribuição da simbologia de arte. a discussão do acto de vontade e fundador do artista. ou seja do gosto. dele e também de quem aprecia. goodman acha isso irrelevante para a qeustão essêncial e é. mas para o vulgar consumidor não é. há sempre a questão do gosto.
há sempre a questão do reconhecimento ou seja a questão do julgamento estéctico. Goodman diz que é inutil e um caminho perigoso. mas todos os nós o fazemos, com mais ou menos força. até porque ao comprar ou consumir arte é precisamente esse julgamento de escolha pessoal que fazemos.
no plano artistico, conceptual e valorativo as latas do manzoni são arte. eu e o resto do pessoal - se se soubesse- comprava-as como investimento, jamais como gosto pessoal para meter na sala.
e mais uma vez não estou a discutir se é arte. é. mas eu não as metia na sala. assim como não vi o branca de neve, etc.
a única coisa que há no post anterior do manzoni que justifique a soberba do Doomsday é a frase final que é obviamente provocatória. como provocatório é o título e o ínicio deste post e este próprio groink. para fazer investir as bestas do apocalipse.
bosco - | 03.19.07 - 3:02 am | #
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Não tenho presente agora grande texto de Goodman de que falas - mas é só levantar-me e ir ver ali à estante da estéticva, ó bosco, por isso cuidadinho! - mas creio que não se deduz da tese do goodman que se metermos um vermeer a servir de vedante aquilo deixa de ser arte. A capacidade simbólica do quadro não se perdeu por isso. o alcance simbólico não é apenas a alteração da função ou do contexto da «coisa», embora em certos casos (como no exemplo que citas do calhau) isso chegue...
Quanto ao nosso amigo Artur, questão prévia para começarmos o diálogo: podes definir melhor o que etendes por «reacção estética»? Sem isso não sei se concordo ou discordo do que afirmas...
E respondendo à questão que dá título ao post, creio que opróprio post já responde: sim, tudo isso é arte. Note-se ainda que o autor do post, apesar de cascar nas bestas apocalípticas, mostra capacidade de regeneração. Para se perceber o que quero dizer basta ler-se o seupost anterior sobre o mesmo tema e o actual. Os progressos são evidentes. abençoadas bestas apocalípticas que tão bem lhe fazem. Doomsday Anonymous | 03.19.07 - 1:37 am | #
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toda a obra de arte provoca uma "reacção estética". é neste sentido que falas nisto Artur?
ou antes pretendes que a reacção estética é definidora da obra de arte? ou mesmo da existência de arte?
tu não te desgraces, rapaz...
el bosco - | Homepage | 03.19.07 - 1:25 am | #
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 Bom tema e boa posta! Eu - e isto é uma opinião - entendo que o símbolo é mera condição necessária à obra de arte. Mas não basta. Não a vejo separada da reacção estética que lhe deve ser associada, por exemplo. Acrescentaria outra pergunta: "porque se faz arte?" Esta abarca quer as questões simbólicas quer as estéticas. É a pergunta mais séria (e mais embaraçosa) que se pode fazer a um artista, tirando Andy Warhol que responderia "não sei"... Mandem brasa! Artur | Homepage | 03.19.07 - 12:08 am | # |