sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O que é Arte? Quais os seus limites, se é que os possui?



“Eres lo que lees”. A frase, escrita com biscoitos de ração para cães, foi colocada na parede branca de uma galeria de arte. Junto a essa parede, preso por uma corda e um fio de arame, foi deixado ao desprezo um cão de rua, abandonado e doente. A alguns metros foi colocado um incensário onde, alegadamente, se queimou crack e cannabis durante a inauguração. Sem água e alimento, o animal morreu na própria galeria durante o dia seguinte.
Passou-se na Nicarágua. Tratava-se de uma “instalação” do artista costa-riquenho Guillermo Vargas, conhecido como Habacuc.
A situação, denunciada pelo El País e documentada em várias imagens, tem merecido enorme divulgação na web e deu origem a uma petição online contra o seu autor que reúne, no momento em que escrevo estas palavras, perto de 50.000 assinaturas.

O assombro generalizado por este gesto cometido em nome da arte lançou uma discussão acesa sobre os seus limites. A questão não é nova. Desde que Duchamp assinou um urinol e o intitulou de “La Fontaine” que se debate o que é, afinal, a Arte. A piada centenária parece entretanto ter perdido a graça. Na sociedade do relativismo cultural o grotesco tornou-se uma demanda crítica. De vacas serradas ao meio conservadas em monólitos de fibra acrílica a diamantes encastrados em caveiras humanas, a produção artística contemporânea vive refém das lógicas do seu tempo. A arte tornou-se lugar para a execução de função do gesto estético. Tudo se submete à performance.
Que a arte se tenha de submeter a todo o tipo de degradação é uma triste consequência do desespero em ser visível. Uma arte demitida de qualquer desígnio que não seja a captura de atenção. De tanta pedrada no charco, os “artistas” tornaram-se patéticos denunciadores da hipocrisia alheia. Sob o manto da irreverência e a crítica não resta mais que moralismo seguidista.

Eis, então, Habacuc, o grande moralizador. Pelas suas próprias palavras afirma que “o importante para mim era a hipocrisia do povo: um animal torna-se o foco de atenção quando o ponho num lugar branco onde as pessoas vão ver arte, e não quando está na rua morto de fome”.
Quando questionado sobre a razão para não utilizar outra forma de exprimir a sua mensagem, a desumanidade é total. “Recordo o que vejo… O cão está mais vivo do que nunca porque continua a dar que falar”.

Não é preciso ser defensor dos animais para perceber o grotesco intelectual em que tudo isto vive. A exibição da morte de um qualquer animal em nome de mais uma pedrada no charco inútil. Habacuc contra o mundo, aos seus olhos carregados de preconceito onde todos seremos hipócritas.
Em nome do desígnio de mudar o mundo, ou de nos mudar a todos, célebres tiranos promoveram os maiores genocídios da história. A Habacuc, em nome de atentar contra a nossa hipocrisia, restou o poder de matar um miserável cão das ruas de Manágua. A arte, essa, já morreu há muito.

Petição online contra Guillermo Habacuc Vargas.

ACTUALIZAÇÃO: 24 de Outubro, 2007.
Novos dados relativos à exposição de Guillermo Vargas foram apresentados desde que o caso foi inicialmente tornado público na web. Justin Anthony chamou-me a atenção para um conjunto de reflexões interessantes de Edward Winkleman. A Galeria Codice, onde a instalação teve lugar, avançou uma declaração de imprensa contendo informação relevante. Aqui estão os factos, tal como adiantados pela directora da galeria Juanita Bermúdez:

- A exposição de Guillermo Vargas teve lugar a 16 de Agosto.
- Um dos trabalhos presentes consistia na “exibição de um cão faminto que o artista recolheu da rua e que durante a exposição apareceu atado a uma corda de nylon, corda essa ligada a uma outra pregada a uma parede a um canto da galeria”.
- “Habacuc baptizou o cão de “Natividad”, em homenagem ao Nicaraguense Natividad Canda (24 anos) que morreu devorado por dois cães Rottweiler numa fábrica de San José, Costa Rica, na madrugada de Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005”.
- “O cão esteve nas instalações durante três dias (…). Esteve solto no pátio interior durante todo o tempo, com excepção das 3 horas da exibição, e foi alimentado regularmente com comida trazida pelo próprio Habacuc”.
- O cão escapou da galeria durante o terceiro dia.
- Juanita Bermúdez afirma que tinha a intenção de adoptar o animal no final do evento.
- A Galeria Códice lamenta as declarações feitas por Habacuc, “em que ele afirma que era sua intenção deixar o cão morrer à fome, o que é da sua inteira responsabilidade”.
- O documento conclui com a seguinte afirmação: “Ao cumprir com informar a verdade dos factos, espero que todas essas mesmas pessoas tivessem elevado também a sua voz de repúdio quando Natividad Canda foi devorado pelos Rottweiler (Al cumplir con informar la verdad de los hechos, espero que todas esas mismas personas hayan elevado también su voz de repudio cuando Natividad Canda fue devorado por los Rottweiler)”.

A declaração de imprensa da Galeria Códice entra em contradição com as afirmações de Habacuc, tal como foram referenciadas pelo jornal costa riquenho La Nación; em que o artista recusou confirmar se o cão havia sido alimentado ou se tinha efectivamente morrido.
Uma vez que os factos reais são impossíveis de aferir, qualquer especulação é inútil. Isso, no entanto, não retira legitimidade às críticas que recebeu, em particular no que refere à falta de ética do evento. O cão em questão apresentava não apenas sinais de malnutrição mas também de doença de pele. Áreas de pele ulceradas são sintomáticas de possíveis doenças graves nos cães, por vezes contagiosas e em alguns casos indicadoras de condições fatais como a Leishmaniose – ainda mais prováveis em cães abandonados sem medicação.
Em conclusão, quando alguém toma um animal à sua guarda, é igualmente responsável pelos seus cuidados. Que tal animal tenha sido usado como objecto de exposição é eticamente inaceitável. O contexto da instalação – um tributo a um homem morto por dois cães – torna-o ainda mais incompreensível. A pretensa associação dos dois factos pelo autor e pela directora da galeria retratam a hipocrisia moral por detrás deste suposto gesto de denúncia.

Quanto às afirmações de Guillermo Vargas, são ou um testemunho da sua crueldade ou uma aspiração por publicidade a qualquer custo. Ambos são inaceitáveis e a consequente reacção esmagadora resulta da sua inteira responsabilidade. O direito à liberdade de expressão, na arte como em tudo o resto, não torna ninguém inimputável. Os fundamentos para a petição em curso permanecem, como tal, igualmente válidos.

Art can kill
“Eres lo que lees”. You are what you read. The sentence, written with dog food, was displayed on the white wall of an art gallery. Close to that wall, an abandoned and diseased street dog was left tied to a rope and a wire string. An incense burner was placed nearby where, allegedly, crack and cannabis was burnt during the inauguration. Without food and water, the animal died in the gallery during the next day.
It happened in Nicaragua. It was an “installation” by artist Guillermo Vargas, known as Habacuc.
The situation, documented with several images, received a lot of attention on the web and originated an online petition against it’s author that gathers, as I write these words, close to 50.000 signatures.

The widespread perplexity for this gesture committed in the name of art launched a fiery discussion about its limits. The question isn’t new. People have been debating what art is since Duchamp signed an urinal and entitled it “La Fontaine”. The centennial joke seems, however, to have lost its funniness. In the society of cultural relativism the grotesque has become a new critical endeavour. From cows cut in half and conserved in monoliths of fibberglass to diamonds engraved on human skulls, contemporary art production lives hostage to the trends of time. Art has become a place for the execution of function and aesthetic gesture. All is performance.
That art has to submit to all kinds of degradation is a sad consequence of its desperation for visibility. An art acquitted of any design other than the capture of attention. Moralism cloaked as irreverence and critique.

Here is, then, Habacuc, the great moralizer. On his own words, he states that “the important to me was the hypocrisy of the people: an animal becomes the focus of attention when I put it on a white place where people go see art, not when he’s on the street dying of hunger”. Questioned on the reason why he didn’t use a different form of expressing his message, the inhumanity is complete. “I remember what I see… The dog is more alive now than ever because people are still talking about it”.

It doesn’t take an animal lover to understand the intellectual grotesque of the whole thing. The display of a dog’s death in the name of a useless gesture. Habacuc against the world, in his prejudiced eyes where we are all hypocrites
Intending to change the world, and change us all, famous tyrants promoted the greatest genocides in history. To Habacuc, against our hypocrisy, was left the power to kill a miserable dog of the streets of Managua. As for art, well, maybe it died a long time ago.

Sign the online petition against Guillermo Habacuc Vargas.

UPDATE: October 24, 2007.
New data regarding the Guillermo Vargas dog exhibition has been presented since it was first made public on the web. Justin Anthony referred me to an interesting set of reflections by Edward Winkleman. Galeria Codice, where the installation took place, advanced an official press release containing relevant information. Here are the facts, according to the gallery director Juanita Bermúdez:

- The Guillermo Vargas exhibition took place on August 16th.
- One of the featured works consisted of “displaying a hungry dog that the artist gathered off the street, and during the exhibition he appeared moored with a nylon cord, that was subject as well to another cord that hung of two nails in a corner of the gallery”.
- “Habucuc named the dog "Natividad" in tribute to the Nicaraguan Natividad Canda (24 years) that died devoured by two Rottweiler dogs in a factory of San Jose, Costa Rica, the dawn of Thursday 10 of November of 2005”.
- “The dog remained in the premises for three days (…). He was loose all along in the inner patio, except for the 3 hours that the sample lasted, and was fed regularly with dog food that the same Habucuc brought”.
- The dog escaped from the gallery on the third day.
- Juanita Bermúdez states she had the intention of keeping the dog herself after the exhibition.
- Galeria Codice regrets the declarations offered by Habacuc, “in which he maintained that its intention was to let the dog die to starvation, which is of its absolute responsibility”.
- The press release concludes with the following statement: “As we fully inform the truth of the facts, we wish all those people would have elevated their voices of disgust when Natividad Canda was devoured by the Rottweiler (Al cumplir con informar la verdad de los hechos, espero que todas esas mismas personas hayan elevado también su voz de repudio cuando Natividad Canda fue devorado por los Rottweiler)”.

Galeria Codice’s press release is contradictory to Habacuc’s statements, as they were presented by Costa Rican newspaper La Nación; in which the artist refused to corroborate if the dog had been fed or if he had indeed died.
Since the real facts cannot be ascertained, speculation is useless at this point. That, however, takes no legitimacy to the criticism it received, particularly on the unethical extent of the display. The dog in question presented not only signs of malnutrition but also of skin disease. Ulcerated, crusted areas of skin are symptomatic of several serious health conditions in dogs, often contagious and sometimes an indication of fatal afflictions like Leishmania – even more probable on a stray, unmedicated dog.
The bottom line is that when someone takes an animal into his guard, he should take full responsibility for its care. That such an animal was used as an object of display is ethically unacceptable. The context of the installation – a tribute to a man killed by two dogs – makes it even more incomprehensible. The association of the two facts by both the author and gallery director reveal the moral hypocrisy behind this alleged gesture of social denunciation.

As for Guillermo Vargas’s statements, they are either a testimony of his cruelty or an aspiration for publicity at all costs. Both are seemingly unacceptable, and the consequent overwhelming reaction is of his own responsibility. The claim for a right to free speech, in arts as in everything else, doesn’t exempt one from accountability. The grounds for the online petition remain, therefore, just as valid.

sábado, 20 de outubro de 2007

História da Arte

Jantar da Serenata



24 de Outubro às 20h30

Encontro 20h em frente à Câmara

Restaurante Chiado (Arnado) – 10

(Inscrições na Biblioteca do Instituto de História da Arte)

Fotos do Jantar de 27 de Outubro de 2007


Jantar de Curso 27de Outubro 2007


Exposição de Pintura de Luis Athouguia

Inaugura a 19 de Outubro (18h00) _ Exposição de Pintura de Luis Athouguia (Casa da Cultura - Coimbra)


Departamento de Cultura


HORÁRIO

Segunda a Sexta _ 9h00 | 19h30

Sábado _ 14h00 | 18h30


EXPOSIÇÃO DE PINTURA _ LUIS ATHOUGUIA

Opção Surreal

CASA MUNICIPAL DA CULTURA [Galeria do Átrio]

19 de Outubro a 7 de Novembro de 2007

(inauguração às 18h00)


Aquilo que de fundamental Luís Athouguia propõe é a partilha da sua mundividência, da sua concepção estética do cosmos, apresentada e fragmentada em cada quadro. Um universo cujo porvir da sua gramática se ajusta a novos conceitos, pulsações tensas, contidas, redutoramente serenas, que emanam da sua obra.

Uma energia geradora de formas e conteúdos com patente capacidade simbólica, e uma interioridade radical, onde o caos reflecte uma visão do mundo feita de perplexidades.

Peregrinações vagabundas por paragens oníricas, erótico-sentimentais, numa luxúria prodigiosa de sensibilidade e imaginação, criando em cada obra um eco, uma ponte, uma fronteira entre o ontem e o hoje, um projecto de viagem.

Nasceu em 1953, em Cascais. É diplomado pelo IADE, Instituto Superior de Design, em Lisboa. Ilustrou capas de livros de grandes autores nacionais e internacionais. Colaborou em equipas de Projectos de Interiores e Arquitectura. Participou em importantes Bienais de Arte, encontros de Arte Postal e Acções de Solidariedade. Desde 1983 realizou mais de duas centenas de exposições de Pintura. Distinguido com o Prémio Vespeira de Desenho em 1997 na Bienal do Montijo.

sábado, 13 de outubro de 2007

Nova Fornada - 2ª Fase

Bem vindos à família...

ANA PATRICIA SANTOS MARQUES
AVELINO VIEIRA LOPES
ELOISA HORTA DE MATOS
HERCULANO JOSE SILVESTRE CANAIS ANTUNES
LIGIA JOGUNDO DA COSTA PEREIRA
LILIANA MARLENE DUARTE PIRES
MARIA PAULA DE MELO MOURA RELVAS
MONICA SOFIA MACHADO GOMES DA SILVA

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Agenda 2007/2008

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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Hora da Reunião

Por lapso não mencionamos a hora a que se realizará a reunião na 2ª feira. Será às 16 h.
Pedimos desculpa pelo facto. agradecendo a compreensão
Fátima

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Reunião

Caros alunos

Pedimos aos alunos do 3º ano de Bolonha e ao 4º ano da Licenciatura antiga, o favor de estarem presentes numa reunião na próxima segunda-feira, dia 15 do corrente mês, na Sala do Seminário do Instituto de História da Arte, com o Director Prof. Doutor António Filipe Pimentel e outros Professores, a fim de tratar de assuntos pendentes.
Em virtude de o mailling que temos referente aos alunos não distinguir o ano em que estão inscritos nem estar completo, vemo-nos na necessidade de incluir outros a frenquentar a Licenciatura. Pedimos, ainda, o favor de contactarem os colegas que conheçam e que não constam da lista.
Agradeço desde já a vossa colaboração e comparência.

Maria da Piedade

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

PROF. DOUTOR NOGUEIRA GONÇALVES


Conhecemo-lo na casa dos seus sessenta, homem robusto, apoiado na sua bengala, e sempre de apresentação impecável: posição bem vertical, batina e capa sempre limpas e escovadas, e penteado bem alinhado. Sofria, no entanto, de um descontrolo nervoso que, por vezes, nos deixava assustados. Tratava-nos por ´ó filhos`, sendo conhecido, em troca, na gíria seminarística, pela alcunha de ´paizinho`.

Homem de grande valor intelectual, creio que autodidacta na maioria dos seus conhecimentos, atingiu por mérito próprio o grau de professor universitário na disciplina de História da Arte, publicando o Património Artístico e Cultural, tendo para isso corrido o país de lés-a-lés.

Monárquico convicto, ai de quem na sua presença ousasse desferir qualquer inconveniência contra o sagrado e real trono. Creio que chegou mesmo a ser preceptor ou educador do actual Duque de Bragança e irmão.

Parecia mesmo ter estacionado as suas vivências nesse ambiente monárquico-romântico.

Foi nosso professor nesta disciplina e ainda na de Literatura Romântica, uma vez que a moderna parecia erradicada dos conhecimentos no Seminário, talvez porque julgada perigosa e desnecessária.

As suas aulas eram dadas na ´Sala dos Bichos`, onde havia uns armários com toda a espécie de bicharada embalsamada. Também aqui as mesas e os bancos eram corridos, tipo escola medieval, situando-se a mesa do professor em cima de um estrado após o qual, no meio, ao fundo, havia uma grande porta que ligava com o laboratório de Química. E do lado da mesa, em relação ao professor, articulava-se eréctil o esqueleto verdadeiro dizia-se - de uma mulher alemã.

Nogueira Gonçalves parecia, pois, talhado para a docência, nas referidas disciplinas. Tivera um tio padre, no quase inacessível Piódão, que veja-se lá! - aqui instalou um colégio. Teve este, nos conturbados tempos da Implantação da República, ampla fama, chegando a ser frequentado pelo pai do Dr. Álvaro Cunhal e servindo de refúgio aos alunos do Seminário, quando os homens da República ameaçavam tudo o que cheirasse a religião. Era um paciente e exímio artista este seu tio, trabalhando a madeira em filigranas de ressaibo gótico. Deixou ampla obra espalhada por altares e portas de capelas e igrejas, um pouco por todo o lado: no seminário da Figueira, na capela de Nossa Senhora de Lourdes do Seminário de Coimbra, na Casa dos Retiros, etc.

A propósito, no último encontro da Figueira, disse o Manuel Fernandes, de Anseriz, que andava a recolher, fotografando com empenho, todo este espólio.

Pois também do Paizinho há belas e inesquecíveis estórias.

A peste dos seminaristas sabia bem como provocar situações.

Como era de bom coração, era o confessor mais procurado pelos semis que tinham assim algum pecadito mais recatado, dado que, então, havia a obrigação da confissão semanal. Mas, a maré tinha que ser previamente analisada, quando não vinha-se de lá corrido:

- Ó filho, foge, que eu racho-te com a bengala!

Claro que o freguês seguinte lá guardava a absolvição para mais tarde e boa catadura.

Uma manhã aparece o Paizinho para celebrar Missa, como sempre, na Capela de Nossa Senhora de Lourdes, cujo altar era da lavra de seu tio. Ora o ratão do semi, para o ouvir, o que faz? Coloca, em cima do armário da Sacristia, a alba mais pequena que havia nos gavetões. O Paizinho, com aquele corpanzil todo, bem a tentou enfiar, mas, não conseguindo, diz muito zangado para o semi sacristão de serviço:

- Ó filho, dá-a ao Amado, dá-a ao Amado!...

O Amado era, então, professor de Teologia Moral e homem de muito baixa estatura.

No dia que, no calendário litúrgico, se celebrava Santa Perpétua e Santa Felicidade, no fim da Missa, volta-se ele para o ajudante e sai-se muito desconsolado:

- Ó filho, aqui estão dois nomes que as mulheres nunca deviam ter. Já viste a infelicidade que era ter de aturar uma mulher perpetuamente? Quanto mais agora duas!...

Era um bom professor de História da Arte. Por isso, logo na primeira aula, fazia questão de ensinar:

- Ó filhos, é História da Arte, História da Arte. Não é história d’arte!...

Qualquer pergunta que fizesse ao aluno, tinha adiantada, por si mesmo, metade da resposta. Era só concluir.

Já se sabia: aluno em cuja terra houvesse monumento ou igreja de valor devia preparar-se para o exame nessa base. Assim, um dia, aconteceu a um aluno que era das bandas do Porto.

- Ó filho, donde é que o senhor é?

- Sou do Porto, sr doutor.

- Ah! É do Porto? Então conhece bem a Sé, não conhece? Diga-me lá de que estilo é?

- É do estilo gótico!- respondeu o aluno meio embasbacado.

- Disseste bem, ó filho, disseste bem! Era para ser do estilo gótico, sim senhor, mas aquelas bestas enganaram-se e fizeram-na do estilo românico.

E o aluno passou, não sei se com distinção, pois nunca reprovava ninguém a não ser que dissesse inconveniências contra a monarquia. Aí a coisa piava tão fino que podia ir até à exibição da pistola como daquela vez em que, no refeitório do seminário, por a sopa ter bispo, os já semis da modernidade cantaram a Maria da Fonte.

Nas aulas de literatura, as ocorrências estóricas eram outras tantas.

Porque era um homem de grande instabilidade emocional, como de resto os bons artistas, qualquer ocorrência dramática, real ou fingida, resultava-lhe num mar de lágrimas.

Aquando da inauguração do busto de D. Nicolau Giliberti, primeiro reitor do Seminário de Coimbra, cantou o grupo coral, sob a direcção do Dr Manuel Reis, entre outras peças, o belo hino das arenas ´César, ceux qui vont mourir te saluent!` Pois chorou, chorou o nosso homem e na aula de Literatura da manhã seguinte ainda comovidamente exclama:

- Ó filhos, não sou digno de estar ao pé de tão grandes artistas! Não sou digno.

Mas vê-lo chorar do fundo do coração era quando nos lia o Frei Luís de

Sousa:

- « Romeiro, romeiro, quem és tu?»

- « Ninguém.»

- Ai! filhos, é tão lindo! - E com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo, dava a aula por terminada, mandando-nos sair. Claro que, na aula seguinte, lá vinha de novo o pedido de repetição da leitura deste diálogo, baseado em qualquer pergunta despropositadamente a propósito.

Chorava também efusivamente quando lia a história do velho Roble, de Alexandre Herculano. Esse que já nos tinha reconfortado com a sua sombra nos ardentes estios, que já tinha deliciado a nossa vista com a sua frondosa copa, agora, mesmo depois de malvadamente derrubado, ainda revela a sua nobreza ardendo no canto da lareira, dando luz, aconchego e calor a toda a casa.

Tinha, finalmente, Nogueira Gonçalves, um horror inato às humidades, ao frio e à morte. Por isso, não se cansava de nos aconselhar:

- Ó filhos, agasalhem-se bem! Encostem-se uns aos outros e cubram-se com as vossas capas. Vistam-se com os farrapinhos todos. Se eles estiverem rostos, vistam-nos ao contrário uns dos outros de forma a que os buracos não coincidam. Desde que estejam bem lavadinhos não faz mal! Olhem que nós, quando somos jovens, não sabemos as asneiras que fazemos. Mais tarde é que as pagamos!...

- A morte!... Ó filhos, só de imaginar aqueles bichos todos à volta do nosso corpo e aquele frio húmido, que horror!...

A aula de literatura era, pois, na sala acima referida. Ora a porta do Laboratório, que ficava por detrás da cadeira do professor, tinha um daqueles grandes buracos das fechaduras antigas. Não nos apetecendo lá muito ter aula em certa manhã de Inverno húmido e frio, resolveu-se deixar aberta a janela do laboratório por onde embocava um serrano levado de mil diabos que, com forte e comprimida rajada, atravessava o dito buraco, chiando e batendo em cheio nas costas do professor:

- Ó filhos, vamos embora, que isto hoje parece uma metralhadora!...

Também para não terem aula e verem a reacção do professor, determinado ano o que havia de resolver? Electrificar o maxilar inferior do dito esqueleto, tipo batente da campainha. Então, quando se accionava o circuito, o esqueleto batia castanholas, com os dentes rangendo uns nos outros. À primeira, o professor achou estranho. Mas, quando a operação se repetiu, não se conteve e exclamou:

- Ó filhos, vamos embora, que o frio hoje é tanto que até o esqueleto bate o dente. Agasalhem-se bem, filhos, agasalhem-se bem!

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Fernando Neves [f_neves@mail.pt]



publicado por lamire às 22:31

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ex.mos Senhores,

A direcção da Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de
Portugal (ARP), vem por este meio informar que estão abertas as inscrições
para o curso de curta duração "Métodos Laboratoriais de Exame para o
Estudo de Pinturas" organizado por esta associação e a decorrer no Centro
Científico e Cultural de Macau (CCCM).

Este curso destina-se a conservadores-restauradores, estudantes de
Conservação e Restauro e a outros profissionais ligados ao Património
Cultural.

Promover cursos de aperfeiçoamento profissional é uma das atribuições da
ARP e que se inscreve no Plano de Actividades de 2007, aprovado em
Assembleia Geral e disponível para consulta no site.

Segue em anexo os panfletos informativos, bem como as normas. A inscrição
deverá ser efectuada através do site da nossa associação
http://www.arp.org.pt
(Menu>>Agenda >> Cursos).

Em nome da direcção venho desejar a todos os participantes que esta
formação seja veículo do vosso enriquecimento profissional.

Com os melhores cumprimentos,

Alexandrina Barreiro
Presidente da Direcção

ARP
Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal
Praça das Amoreiras 8, r/c
1250-020 - Lisboa
96 00 44 910
mail@arp.org.pt
www.arp.org.pt

Recepção aos caloiros de História da Arte - Fotos 2007/2008



Fotos da Praxe

(clicar para seguir Hiperligação)

SOLICITA-SE DIVULGAÇÃO:
Workshop - Ritmo, Movimento e dinâmica no espaço

Outubro 2007

A Casa Museu Abel Salazar organiza um Workshop de Ritmo , Movimento e dinâmica no espaço com início no próximo dia 15 de Outubro pelas 18h30m.

Aberto a todas as pessoas que já tenham uma primeira experiência artística, cenógrafos, actores, bailarinos, coreógrafos, artistas plásticos, arquitectos e todos os que se interessam pela relação do corpo com o espaço.

Para compreender as forças que organizam o espaço, utilizaremos o movimento. O corpo, como objecto dinâmico e poético, será o nosso instrumento. A análise de movimentos simples e a sua transposição para formas construídas em atelier, criam um espaço de reflexão sobre a concepção do espaço.
Através de uma série de exercícios, os alunos são incentivados a reflectir sobre a composição, a dinâmica, o ritmo do espaço.
As oposições, o vazio e o cheio, o equilíbrio e o desiquilíbrio... Abordaremos igualmente as estruras em tensão, o equilíbrio de forças, as estruturas em auto-sustentação...


Material necessário:

x- Acto
4 folhas de cartão canelado tipo caixa 120x120
Pistola de cola
Tintas acrílicas
Pincéis
Grafites
Fio do norte
Cartolinas de cor
Bloco de Papel Cavalinho A3
Varinhas em Madeira

Formador:

Tiago Barbosa
Formação em cenografia entre 1997 e 1999 no L.E.M., Laboratório de Estudo do Movimento, na Escola Internacional de Teatro Jacques Lecop em Paris. Como cenografo trabalhou entre outros, nos seguintes projectos:
S - tet;"oroject Oxas", Paris, Theatre Rue Pietonne, Strasbourg, CousCous Clown, Barcelona, " Em Tensão", Gravidade Zero, " A Companhia do Rei - Estórias aos Solavancos", Teatro Oficina, " Trio Maravilha ou o Cabaret Bazar da Madame Dióspiro", " A Carroça das Percussões", "Gigantones e Circaçudos"," A Tempestade" de W. Shakespeare, Old Mother Hubbert's Washed Stone Cupbord Theatre, Corpredy, Inglaterra.

• INFORMAÇÕES GERAIS

a) Datas: 15, 16, 17, 18, 20, 22,23,24,25, 27 de Outubro
b) Nº pessoas: 15
c) Horário: 18h30 às 21h30
d) Estrutura do curso: prático
e) Valor: 50€ para UP, 60€ Publico em Geral
f) Inscrições: Ana Martins
g) Contacto: anamartins@reit.up.pt; 220408193
H) Local: Antiga Reitoria da UP ( Rua D. Manuel II)

Ana Lúcia Martins

Instituto de Recursos e Iniciativas Comuns
Universidade do Porto
Praça Gomes Teixeira
4099-002 Porto Portugal
T. + 351 220408193 extensão: 5513

anamartins@reit.up.pt

Maria Luísa Garcia Fernandes

Instituto de Recursos e Iniciativas Comuns

Universidade do Porto

Praça Gomes Teixeira

4099-002 Porto -Portugal

T. + 351 220408091 ext.5511

lgfernandes@reit.up.pt

Exposição «Lusa-matriz portuguesa»

leva tesouros ao Brasil

Cerca de 40 tesouros nacionais de Portugal, entre eles um guerreiro em granito e um colar de ouro celtas, serão exibidos pela primeira vez no Brasil na exposição «Lusa - a matriz portuguesa», que será inaugurada a 11 de Outubro.

Um total de 165 peças de 43 instituições portugueses estarão expostas no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, até 10 de Fevereiro de 2008, para assinalar o início das comemorações dos duzentos anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil.

Organizada pelo CCBB, a produção desta exposição está a cargo de especialistas brasileiros e tem a curadoria a cargo de responsáveis por museus portugueses e outras entidades públicas e privadas como a Biblioteca Nacional, a Torre do Tombo e a Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta mostra é a terceira parte de uma trilogia sobre formação étnica, criada pelo CCBB, dirigida ao público brasileiro, que foi iniciada com «Arte da África», continuada com «Antes - Histórias da Pré-História» e que prossegue agora com o elemento português na formação da cultura brasileira.

«Lusa - a matriz portuguesa» constitui uma imersão nas origens de Portugal, desde a pré-História até 1500, abordando os povos antigos, o domínio romano, a presença cristã, judaica e árabe, o prériodo de formação das fronteiras do país, até ao apogeu da era dos descobrimentos marítimos.

A exposição contém peças em mármore, pedra, ouro, azulejo, pintura, escultura, achados arqueológicos, mapas, e é acompanhada por componentes multimédia sobre a formação da língua portuguesa, a arquitectura e a paisagem portuguesa.

O Museu Nacional de Arqueologia é aquele que mais peças envia para a mostra, com muitas do período pré-histórico, entre elas, um esqueleto humano proveniente de Alcácer do Sal, um báculo de dorso serrilhado em xisto, um punhal, braceletes e fragmentos de armas.

Uma escultura da Santíssima Trindade em pedra, datada dos séculos XV-XVI, uma pintura da Oficina de Vasco Fernandes representando um judeu, datada de 1530-1540, e uma escultura da Virgem com o Menino Jesus em calcário policromado, datada de 1450-1475, são algumas das obras cedidas pelo Museu Nacional de Arte Antiga.

Também na lista de peças estão, entre outras, uma pilastra visigótica do Museu Monográfico de Conímbriga, um capitel Moçárabe do Museu de Alberto Sampaio, um painel de 18 azulejos do período medieval cristão do Museu Nacional do Azulejo, uma escultura com sereia do período medieval cristão românico do Museu Nacional Machado de Castro, e uma cópia da tapeçaria quinhentista representando o Cerco de Arzila, saída do Paço dos Duques de Bragança.

Os curadores da exposição são Jorge Couto (Descobrimentos), Ivo Castro (Língua), Cláudio Torres (Medieval islâmico), Luís Raposo (Pré-História), Conceição Lopes (Período Romano), Santiago Macias e Paulo Almeida Fernandes (Paleocristão/visigótico), Maria José Ferro Tavares (Judeus) e José Custódio Vieira da Silva (Medieval cristão).

«Lusa - a matriz portuguesa», que é patrocinada pelo Banco do Brasil, vai ocupar o primeiro e segundo andares do CCBB no Rio de Janeiro.

Diário Digital / Lusa

18-09-2007

Outras notícias:

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 15.9.2007: "A História de Portugal que o Brasil Desconhece"

Lead: O Banco do Brasil está a organizar uma grande exposição com peças e tesouros nacionais. A inaugurar a 11 de Outubro no Rio de Janeiro, 'Lusa - A Matriz Portuguesa' seguirá em 2008 para Brasília.

Os números de um projecto ambicioso: 1 milhão de euros é o orçamento; 750 pessoas é o número de visitantes esperados no Rio de Janeiro; 176 peças cedidas por importantes museus e instituições; 27 tesouros nacionais emprestados.

EXPRESSO / CARTAZ, 29.9.2007: "O Regresso das Caravelas"

Uma epxosição promovida pelo Banco do Brasil leva a esse país um acervo único de obras de arte porutugesas.

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